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Todos sabem que a luta livre profissional é falsa. Todos sabem o mesmo a respeito de filmes. Em ambos os casos, os espectadores entusiasmados simultaneamente admiram o artifício e fingem que o mesmo não está ali, permitindo-se acreditar que aquelas pessoas no ringue ou na tela estão realmente causando dor um ao outro.

“O Lutador” – o quarto longa-metragem de Darren Aronofsky e ganhador do prêmio máximo no Festival de Veneza este ano – cuidadosamente explora este paralelo e ao mesmo tempo mostra que, tanto no cinema quanto na luta livre, a linha entre a realidade e o faz-de-conta pode ser menos visível do que acreditamos. Filmando seu herói desgastado principalmente com tomadas de câmera na mão, Aronofsky – que dirigiu anteriormente o quebra-cabeça “Pi” e o arrebatador, fantástico e impossível de assistir “Fonte da Vida” – faz aqui uma demonstração convincente de brutal realismo.

Os supermercados, estacionamentos de trailers, salões dos veteranos de guerra e anfiteatros dilapidados de Nova Jersey são convincentemente monótonos, e a película traz uma aura de desgaste e conquista com gosto azedo e salgado. Mas a história que emerge é cativantemente doce, em alguns momentos chega a ser pura sacarina – uma parábola familiar de esperanças perdidas e segundas chances. Talvez seja um pouco falso, ma, recusar-se a aceitar a profunda sentimentalidade do filme seria como enganar a si mesmo se privando do profundo prazer que ele oferece.

Randy “The Ram” Robinson, com a elaborada e grandiosa interpretação de Mickey Rourke, está longe de ser um personagem falso, mesmo que nada nele seja realmente genuíno. Seu nome verdadeiro, o qual ele não suporta ouvir, é Robin Ramsinski, seus músculos são inflados por esteróides e é difícil acreditar que sua longa cabeleira seja loira de verdade. Mas, sua falsidade calculada é, de certa forma, o que garante a veracidade de Randy, um performista nato, autêntico e passional. A descrição também serve para Rourke.

Nos anos 80, tanto o verdadeiro ator e o lutador ficcional eram celebridades (um monólogo enaltecendo essa época e maldizendo a seguinte tem um duplo significado óbvio e apimentado: a fala é dirigida à personagem interpretada por Marisa Tomei, atriz que viveu alguns dramas em sua carreira no final dos anos 90, tornando-o ainda mais comovente).
Rourke era um cara durão de coração mole, sorriso torto e de uma delicadeza que transparecia mesmo nas poses de durão e nos filmes ruins. Randy, por sua vez, era um gigante no topo do mundo da luta livre profissional, inspirando personagens de ação e videogames e praticando suas habilidades em arenas importantes como o Madison Square Garden.

Agora, 20 anos depois, ele – Randy, no caso – foi rebaixado a ginásios decadentes. Ele passa por dificuldades para pagar o aluguel de seu trailer, e sua saúde está deteriorando. Seu profissionalismo, no entanto, não diminuiu, e as cenas mais comoventes e persuasivas em “O Lutador” mostram os bastidores de Ram com os homens que são seus camaradas e rivais, trabalhando nos pontos mais precisos de suas rotinas com um carinho e um respeito completamente opostos à maldade que eles apresentam no ringue.

Randy é gentil e carinhoso com um lutador mais jovem, elogiando a habilidade do garoto e pedindo a ele que se mantenha no esporte. Sem parecer artificial, ele chama de “irmão” outros personagens do filme – muitos deles interpretados por lutadores profissionais ou aposentados na vida real.

Apesar das lutas serem coreografadas, a dor e o sangue muitas vezes são reais. Mantemos em segredo os truques do ramo, como o pequeno pedaço de lâmina de barbear que Randy usa para cortar sua face durante uma luta. Testemunhamos uma luta horrível envolvendo vidro quebrado, arame farpado e um grampeador industrial, tudo ocorrido conforme o consentimento dos combatentes.

Também percebemos que toda luta é um pequeno teatro moral. Num determinado momento, Randy e um adversário sentam em cadeiras, trocando tapas na cara. Quando o vilão designado dá seu golpe, a plateia vaia; quando é ele quem recebe, a plateia aplaude. A regra básica é definida por um antigo inimigo de Randy em poucas palavras: “Eu sou o calcanhar, e você é o rosto”.

E sobre este rosto, Aronofsky não se priva de tempo para mostrá-lo – oscilando por trás de Rourke e nos oferecendo visões indiretas durante os primeiros minutos do filme, antes de revelar a face em ruínas que, apesar de desgastada e inchada, é estranhamente bela como em “Quando os Jovens se Tornam Adultos” ou “Nos Calcanhares da Máfia”. Danificado, cansado, desgastado o quanto for – ou não for… Os filmes não são verdadeiros! – Rourke ainda é, no linguajar da luta livre, o rosto, o pólo magnético do nosso interesse, o sujeito por quem estamos torcendo.

Mas Randy é também, fora do ringue, algo como um calcanhar. Ele é afastado de sua filha, Stephanie, (Evan Rachel Wood), que demonstra raiva, insinuando alguns erros do passado, quando ele tenta uma reconciliação. Ele também é apaixonado por uma stripper conhecida como Cassidy (Tomei) que, com sua dança e conversa amigável, o faz acreditar em interesse recíproco.

A notícia que Tomei interpreta uma stripper pode fazer você virar os olhos – pode, na verdade, fazê-los sair de órbita – mas seu trabalho é mais do que uma desculpa para exibir seu corpo do que o de Rourke na tela. Randy e Cassidy (também não é seu nome real) são artistas, ambos especialistas em falsear algo que os clientes querem desesperadamente acreditar que seja real. Os lutadores não se odeiam na realidade, e a stripper na realidade não te ama.

O fato de Randy não conseguir entender isso em se tratando de Cassidy – mesmo percebendo que eles fazem algo em comum – é parte de seu charme. Ele não é tão esperto, mas tem um talento genuíno. Algumas partes de “O Lutador”, escrito por Robert D. Siegel, são idiotas de sua própria maneira, ou da maneira que muitos filmes são. A trama secundária entre Randy e Stephanie não é persuasiva, e os últimos reveses do romance entre Randy e Cassidy beiram o ridículo. Mas assim como o herói da trama, o filme é de uma honestidade exuberante, apresentando mesmo seus movimentos falsos com convicção e elegância.

Assista ao trailer de “O Lutador”:

Omelete: nota máxima para a redenção de Mickey Rourke



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