Para os venezuelanos, a proximidade de um processo eleitoral passou a ser sinônimo de desabastecimento dos principais produtos da cesta básica. Às vésperas do referendo do próximo domingo - em que os venezuelanos decidirão se aprovam ou não o fim do limite à reeleição -, arroz, feijão, açúcar e papel higiênico são produtos que desapareceram das prateleiras dos supermercados de Caracas. Não é a primeira vez que isso ocorre. Nas eleições regionais do ano passado, os produtos em escassez eram açúcar e café.
No referendo de 2007, quando os venezuelanos disseram não à uma ampla reforma constitucional, houve uma aguda crise de desabastecimento de leite. Dois dias depois do pleito, o produto reapareceu nas prateleiras, em grandes quantidades.
Wilmer Florian, chefe de compras de um supermercado em Altamira, bairro de classe-média alta da capital, disse que há uma semana os fornecedores deixaram de entregar os principais produtos da cesta básica.
“Nas semanas anteriores, chegava um pouco e logo acabava, mas, nesta semana, não veio nada mesmo, principalmente papel higiênico e arroz”, afirmou Florian à BBC Brasil.
O funcionário disse que os fornecedores alegam que a escassez ocorre devido à falta de matéria-prima para a industrialização. Mas, em sua opinião, o problema é de natureza política.
“O governo tem controlado mais os empresários, obrigando a regulação dos preços, coisas que não existiam antes. E eles respondem assim para pressionar o governo, para que os consumidores sintam essa sensação de caos”, afirmou.
Todos os grandes supermercados da capital - cujas redes de abastecimento não passam pelo controle do governo - enfrentam o mesmo problema.
O presidente da Confederação de Industriais, Eduardo Gómez Sigala, afirma que a escassez é fruto do “excesso de controle do governo”, tanto na regulação dos preços como no acesso às divisas para a importação dos produtos.
Desde 2003, vigora um controle de câmbio no país, razão pela qual todas as atividades comerciais com moeda estrangeira são reguladas pelo Estado.
“O problema político é do governo, não tem nada a ver com eleições”, afirmou Sigala à BBC Brasil.
Já a federação Empresários pela Venezuela, grupo próximo ao governo, discorda. Para o presidente desta organização, Alejandro Uzcátegui, o problema é “fundamentalmente eleitoral”.
“Trata-se de uma estratégia desestabilizadora. Esses empresários pretendem afetar o resultado das eleições do domingo, assim como tentaram fazer no ano passado com as eleições regionais”, afirmou Uzcátegui à BBC Brasil.
“Esses grandes monopólios ainda controlam a produção e a distribuição. Eles preferem perder dinheiro, estocando os produtos, sempre e quando possam afetar o governo”, acrescentou.
Em outro supermercado, também no leste de Caracas, onde reside a maioria dos opositores do presidente Hugo Chávez, as prateleiras reservadas para os alimentos de primeira necessidade estavam vazias.
Para o consumidor Alfonso Benitez, a responsabilidade é do presidente venezuelano.
“A culpa é dele, isso mostra sua má administração”, afirmou.
Outro fator que aumenta o desabastecimento em períodos pré-eleitorais são as chamadas “compras nervosas”.
“Já não tem muito e o pessoal vem e enche os carrinhos, estoca mesmo, com medo de que alguma coisa possa sair mal nas eleições”, disse Benitez.
O trauma mais recente gerado pelo desabastecimento de alimentos tem origem no locaute empresarial de 2002, quando a federação de empresários Fedecámaras, aliada à estatal petrolífera PDVSA, decidiu paralisar suas atividades com o objetivo de atingir o governo. O locaute durou 62 dias e provocou escassez de alimentos em todo o país.
No mesmo supermercado, outra consumidora mostrava irritação.
“O que quero é viver em paz, já não aguento mais votar. Todo dia tem eleição neste país”, afirmou a empresária Maritza Fernandez.
O referendo do próximo domingo será a 15ª eleição da qual participarão os venezuelanos em uma década do governo Chávez.
A situação é completamente oposta para os moradores da periferia oeste de Caracas.
Nos mercados populares subsidiados pelo governo (Mercal e Pdval), onde a população compra alimentos com até 70% de desconto, não há escassez.
“Aqui tem de tudo, o que falta às vezes é dinheiro”, afirmou, em tom bem-humorado, o motoboy Jitson Huerta, morador do bairro de La Vega.
Os mercados do governo são abastecidos com importações provenientes principalmente do Brasil e da Colômbia.
Na Venezuela, que mantém uma economia dependente da exportação petrolífera, cerca de 70% dos alimentos são importados.
Ao longo do ano passado, o Ministério de Alimentação anunciou a importação de milhares de toneladas de alimentos como medida para evitar o desabastecimento nos mercados subsidiados.
Governistas consideram que uma das razões que levou à derrota o governo no referendo da reforma constitucional em 2007 foi a escassez de leite e de outros produtos da cesta básica, que afetou principalmente aos moradores das periferias, onde está a principal base de apoio do governo.
Espera-se que mais de 16 milhões de venezuelanos compareçam às urnas para opinar sobre o referendo que, se for aprovado, permitirá ao presidente Hugo Chávez disputar um terceiro mandato presidencial.
Caso contrário, o presidente venezuelano terá de deixar o governo em 2013, quando termina seu segundo mandato.
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